Correio da Manhã
A RAIVA E O ORGULHO DE ORIANA FALLACI
Calar é uma culpa e falar uma obrigação... “Um dever cívico,
um desafio moral, um imperativo categórico a que não podemos
fugir”. Com estas palavras, a jornalista e escritora italiana
Oriana Fallaci prepara o leitor para o livro que escreveu e registou como sermão em vez de romance, ensaio, memória ou panfleto.
10 de novembro de 2002
Chama-se “A Raiva e o Orgulho”, traz chancela da Difel e
polémica garantida. Escrito a quente, “dezoito dias depois do
Apocalipse de Nova Iorque”, raciocínio de gelo, escorre como lava
num diálogo com o leitor que não larga até que acorde para a
realidade... A sua. São argumentos fortes os seus. Verdadeiros
também. Só não são os únicos. Nem o mundo é a preto e branco
nem os homens se dividem entre os bons e os maus.
Chamou-lhe sermão e fez bem porque “um sermão julga-se pelos
resultados e não pelos aplausos ou pelos assobios que vai
desencadear”. Assim sendo, diz quem quer de sua justiça,
independentemente da justiça dos outros e, descartado o tom
sentencioso, tudo lhe é permitido, até chamar a estas páginas o
Dalai Lama com quem passou “um dia inteiro” e... não aprendeu
nada! “Que sentido fará defender a sua cultura ou pretensa
cultura, quando eles desprezam a nossa?”, lê-se a propósito do
islamismo.
“A Raiva e o Orgulho” de Oriana começou por ser um longo
artigo de jornal que, de tão longo, acabou sendo livro: “com o ímpeto de um soldado a sair da trincheira e a lançar-se contra o inimigo, atirei-me à máquina de escrever . Pus-me a fazer a única coisa que sabia fazer, que podia fazer. Escrever”.
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| Muslims pray in New York Times Square |
“Nem me lembro se determinadas coisas eu as vi acontecerem na
primeira Torre ou na segunda. As pessoas que, para não morrer
queimadas, se atiravam das janelas dos octagésimos ou nonagésimos
andares. Partiam os vidros das janelas, saltavam para cima delas e
atiravam-se para baixo como se fossem lançar-se de um avião com um
pára-quedas às costas. Às dúzias. Sim, às dúzias. E desciam tão
devagar. Tão devagarinho”... Todos assistimos a isto mas,
decididamente, alguns mais que outros, já que, nestas coisas da
tragédia é a proximidade que a faz maior do que já é. Por isso se
compreende o ódio.
Não a insistência nele. Sabe disso melhor que
ninguém o menino de oito anos, ouvido, por acaso, numa rua de Nova
Iorque... “A minha mamã dizia sempre: ‘Bobby, se te perderes
quando voltares para casa, não tenhas medo. Olha para as Torres e
lembra-te de que vivemos a dez blocos de distância na margem
Hudson’. Mas agora já não há Torres. Pessoas más varreram-nas
dali com quem estava lá dentro. E por isso andei durante uma semana
a perguntar a mim mesmo: Bobby se agora te perderes, que fazes para
voltar para casa? Mas depois disse comigo: Bobby, neste mundo também
há gente boa. Se te perderes agora, qualquer pessoa boa te ajudará
em vez das Torres. O importante é que não tenhas medo”.
Porque “as coisas escritas podem fazer um grande bem e também
um grande mal, curar ou matar”, haja coragem bastante para curar.
Todos. Vítimas e carrascos que, dependendo da circunstância, somos
todos.
“(...) é um rei sem reino, um papa sem igreja, um deus sem
fiéis. Pior: como os seus súbditos estão espalhados na Índia, no
Nepal e no Sikkim, quando morrer será praticamente impossível
encontrar o seu sucessor; assim, quase de certeza será ele o último
Dalai Lama. Nessa altura interrompi-o, pensando que o ódio devorasse
o seu coração e perguntei-lhe: “Santidade, poderá alguma vez
perdoar aos seus inimigos?. Olhou para mim atónito. Surpreendido,
incrédulo, talvez ofendido, espantado. E com aquela sua voz, cheia
de paixão, convicção, sinceridade, exclamou: ‘Inimigos? Mas eu
nunca os considerei inimigos! Eu não tenho inimigos! Um budista não
tem inimigos!’
PS: Como é que é possível que depois do 11 de Setembro, os muçulmanos possam encher a Times Square para ali fazerem as suas preces? Isto é próprio de uma civilização suicida.