Há coisas que não precisam de grandes explicações para se sentir que estão erradas. Basta olhar. Este ano, bastou ver as fotografias das crianças de uma escola, no Pinhal Novo: as fotos natalícias... sem Natal nenhum.
Nem uma árvore.
Nem uma luz.
Nem um laço vermelho.
Nada.
As crianças sentadas num cenário neutro, quase clínico, com um globo, um lápis e uma ausência tão gritante que até parece que alguém teve medo de deixar o espírito natalício entrar pela objetiva.
E é aqui que a história ganha o seu absurdo: não foi por esquecimento. Foi por intenção. A escola decidiu abolir imagens natalícias para ser “inclusiva”.
Chamo a isto o novo fenómeno social: a inclusão que exclui tudo o que tem identidade.
Porque alguém, algures, decidiu que uma criança que não celebra Natal será traumatizada por ver uma bola dourada ao lado. Ou que a neutralidade emocional é mais segura do que ensinar respeito pela diversidade. Ou que apagar símbolos é mais fácil do que educar para conviver com eles.
A verdade, porém, é outra: não é inclusão... é medo. Medo de que alguém reclame. Medo de fazer diferente do politicamente higienizado. Medo de assumir que a cultura também educa.
E quando o medo educa… a educação perde.
O problema não está na decisão de querer acolher todas as crenças. O problema está no método: retirar tudo para não ferir ninguém. É infantil. É redutor. É emocionalmente pobre.
Porque não se protege uma criança escondendo o mundo. Protege-se mostrando-o e ensinando-a a navegar nele.
A maior ironia?
Se um dia abolirem os ovos da Páscoa, as estrelas de Natal, os santos populares, os cravos de Abril, a sardinha de junho, o presépio na janela e a árvore na sala… não será por respeito à diversidade. Será porque confundimos “não ofender” com “não existir”.
E isto diz muito sobre o estado emocional do país: estamos tão ocupados a evitar conflito que já nem percebemos quando estamos a amputar a nossa própria memória coletiva.
O Natal não é religioso para muitas famílias. É cultura. É tradição. É pertença. É história. É emoção. É infância.
E quando uma escola decide que uma fotografia sem Natal é mais “segura” do que lidar com a pluralidade, o que está realmente a ensinar é que ter identidade é perigoso.
Estamos a criar gerações educadas para o vazio simbólico, para a neutralidade constante, para o “não faças ondas”, para o “não vás por aí porque alguém pode ficar desconfortável”.
Mas sabes qual é o verdadeiro desconforto?
Olhar para uma fotografia de Natal e não reconhecer o Natal.
Olhar para uma festa escolar e não encontrar a tradição.
Olhar para uma decisão e ver medo, em vez de coragem educativa.
O que aconteceu no Pinhal Novo não é apenas uma escolha logística. É um reflexo emocional. Um sintoma de uma sociedade que já não sabe defender o que é seu, nem integrar o que é dos outros, sem apagar tudo à volta.
E quando começamos a apagar símbolos… começamos a apagar-nos.
No fim, não se trata de uma árvore ou de um cenário fotográfico. Trata-se de um país que está a confundir respeito com amnésia cultural.
E, sinceramente, precisamos de dizer isto em voz alta: quando a inclusão exige que deixemos de existir, não é inclusão... é neutralização.
No fundo, este episódio lembra-nos algo essencial: a educação não se faz pelo "apagamento", faz-se pela convivência. Se queremos realmente crianças preparadas para um mundo diverso, não precisamos de lhes retirar símbolos... precisamos de lhes dar ferramentas para os compreender, respeitar e dialogar com eles. A inclusão verdadeira não teme identidade nenhuma... abraça-as todas. E é esta maturidade emocional que as escolas, e nós enquanto sociedade, somos chamados a recuperar.
"Roubado" à Sandra M.Gil Ferreira

Sem comentários:
Enviar um comentário