O alegado líder de uma rede
de auxílio à imigração ilegal em Lisboa confessou esta terça-feira, no
julgamento, ter fornecido a sua morada para compatriotas do Bangladesh
se legalizarem em Portugal, mas ressalvou que não sabia que tal
constituía crime.
"Cada vez que fornecia a
morada às pessoas, ia sempre à Junta [de Freguesia da Penha de França]
perguntar se havia problema e sempre diziam que não. Não sabia que era
considerado um crime. Se soubesse que era crime, não o teria cometido e
lamento", disse no Tribunal Central Criminal de Lisboa, através de uma
intérprete, Rippon Hossain, de 49 anos e cidadão português desde março
de 2022.
Instado a identificar quem
tinham sido os seus interlocutores na autarquia lisboeta, mencionou um
homem e duas mulheres, de cujos nomes garantiu não se lembrar.
A existência de um esquema
para que, com recurso a moradas fornecidas por outras pessoas a troco de
dinheiro, a Junta de Freguesia da Penha de França atestasse
erroneamente a residência de imigrantes foi denunciada em 2022 pela
própria autarquia.
Em junho de 2024, o
Ministério Público acusou 30 pessoas, das quais 26 começaram hoje a ser
julgadas. Das restantes quatro, uma morreu entretanto e outras três vão
ser julgadas em separado, devido a dificuldades em notificá-las.
Rippon Hossain, sujeito a prisão domiciliária, está acusado de ter sido o mentor do esquema, algo que negou em tribunal.
O luso-bangladeshi contou
que, entre 2016 e 2021, explorou um restaurante em Lisboa, e que, depois
de este fechar devido à pandemia de covid-19, regressou por seis meses
ao país natal, tendo em seguida voltado a Portugal.
Terá sido nessa altura que,
por sugestão de um dos arguidos por notificar, começou "a trabalhar na
Junta, a entregar a sua morada" a "pessoas do Bangladesh", num total de
cerca de 1300.
"Havia pessoas que não tinham
morada, porque viviam em "hostels" e pensões", justificou,
acrescentando que recebia entre cinco e dez euros de cada vez que
fornecia o endereço.
"Se alguma recebesse cartão de residência, então recebia 50 euros ou um pouco mais", admitiu.
De acordo com a acusação,
Rippon Hossain seria o líder de uma rede que contaria com cinco
intermediários igualmente naturais do Paquistão e mais 23 pessoas, na
maioria portugueses, residentes na Penha de França, cuja função seria
fornecer a sua morada ou testemunhar a veracidade de outro endereço, a
troco de quantias entre os 10 e os 60 euros.
O esquema contaria com a
colaboração de um funcionário da Junta de Freguesia, que alertaria um
dos intermediários sempre que uma das moradas usadas se tornava
suspeita.
O funcionário terá sido o
único a não lucrar com o negócio, enquanto os restantes terão obtido,
entre janeiro de 2020 e julho de 2023, de 110 a 14.850 euros.
Dos 26 arguidos que hoje começaram a ser julgados, um faltou, 13 disseram querer falar e 12 optaram pelo silêncio.
O funcionário autárquico
responde por abuso de poder, enquanto os restantes estão acusados de
crimes de associação de auxílio à imigração ilegal, falsificação de
documento e auxílio à imigração ilegal.
04 fev, 2025 - 13:44 • Lusa