sábado, 2 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
quinta-feira, 30 de abril de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
O neurocirurgião, o futebolista e a menina do MacDonald's
Ainda há poucos dias uma senhora
africana a ser entrevistada queixava-se amargamente de que não havia
um único comentador negro nas televisões. A entrevistadora
interrompeu e disse qualquer coisa como "bem no futebol há um,
Abel Xavier..." ao que a senhora respondeu "bem, mas isso é
no futebol." Como quem diz, isso não conta...
Não sei
quantos neurocirurgiões negros há em Portugal. Mas sei que há
muitos jogadores de futebol negros. Já no MacDonald' vêem-se
algumas mocinhas negras. Mas a maioria dos empregados e empregadas
continua a ser branca.
Felizmente nunca tive um problema de
saúde grave, como por exemplo um aneurisma no cérebro. Muitas vezes
os aneurismas nem sequer são operáveis. Tratam-se de uma espécie
de bolhas, que surgem quando a parede de uma veia enfraquece e a
pressão do sangue provoca essa bolha. Se rebentar temos aquilo que
se chama um AVC.
Fartei-me de jogar à bola com miúdos
negros, quando tinha 9, 10 anos, em Angola. Havia sempre dois
problemas nesses jogos de rua. A bola, normalmente essa nossa, dos
brancos. Mas como éramos sempre uma minoria tínhamos que contar com
os miúdos negros para fazer duas equipas em condições, 7 ou 8
jogadores de cada lado.
O segundo problema era uma questão de
igualdade de condições. As equipas eram mistas, obviamente. A
maneira de escolher os jogadores, para cada equipa era curiosa: os
dois mais velhos ficavam frente a frente, separados 2 ou 3 metros,
Começavam a andar, colocando cada pé junto ao calcanhar do outro
pé.
Quem ficasse com o pé sobre o pé do adversário, no
último passo, tinha direito a fazer a primeira escolha - e essa ia
logo para o melhor craque de todos, independentemente da cor, como é
óbvio. Depois, a escolha era alternada. O capitão de uma equipa
escolhia o segundo jogador, o capitão da equipa adversária escolhia
o terceiro jogador e assim por diante, até as equipas estarem
concluídas - e mistas, obviamente.
Mas o problema da
igualdade de condições, de vantagens injustificáveis tinha a ver
com o calçado. Nós, brancos, tínhamos sapatos e ténis. Os miúdos
negros que jogavam connosco - e que, regra geral, eram a maioria -
jogavam descalços. Para equilibrar as condições, nós jogávamos
também descalços.
E isto acontecia tinha eu 9 ou 10 anos,
como disse mais acima. O jogo era na rua, as balizas eram pedras
amontadas, em cada linha de fundo imaginária e era preciso estar de
olho na ponta de cada rua, por causa dos carros.
Enquanto
andei na escola primária, jogava descalço - e ao princípio era
muito duro. O asfalto costumava estar quente e nas disputas de bola,
lá iam de vez em quando os dedos a esfregar esse mesmo asfalto.
Estava tão habituado a jogar descalço que, quando fui para o liceu,
continuei com esse hábito.
Mas aí eu era uma minoria. E só
aí percebi como tinham razão os meus amigos negros. Até hoje,
tenho dois dedos do pé direito tortos, fruto de uma disputa de bola
com um colega branco, forte e bem calçado.
Lembro-me que o
jogador mais cobiçado - e o primeiro a ser escolhido pelo capitão
que ganhava a prioridade - era um miúdo negro, José Manuel, se a
memória não me falha. Era uma mistura de Figo com Ronaldo, um
craque a fintar, uma capacidade de acelerar que nos deixava a todos,
adversários, para trás.
Em suma, era o melhor. Por isso é
que, naquela espécie de sorteio para decidir quem era o primeiro
capitão a escolher, o Zé Manual era a preferência, sempre. Apenas
porque era bom. Muito bom.
Voltando ao princípio e à senhora
africana que lamentava não haver comentadores negros na televisão,
lembrei-me logo do Zé Manuel. Jogava porque era bom, não porque era
negro. Fosse branco, azul ou amarelo, o Zé Manuel tinha sempre lugar
em qualquer equipa.
Não tinha a ver com proporções ou com o
número de jogadores brancos ou negros. Ao ouvir o lamento da senhora
africana lembrei-me também de outra questão. A selecção francesa
de futebol, nos mundiais de 2018 e 2022 tinha uma maioria de
jogadores com ascendência africana ou caribenha.
A exigência
da senhora africana, que queria comentadores negros nas tv's, leva-me
a perguntar: porque é que há mais jogadores negros do que brancos
nas equipas de basquetebol americanas? E porque é que, nas provas de
natação nas olimpíadas, não se vê um nadador negro?
Porque
é que nas corridas de 100 metros, muitas vezes temos finais sem um
único corredor branco? Porque aqui, o que conta é o Zé Manuel.
Equipa que o tivesse raramente perdia. O Zé Manel era o nosso Usain
Bolt. Tal como o Ronaldo é o Ronaldo e equipa que o tem ganha mais
do que perde.
Oxalá essa senhora africana que estava a ser
entrevistada e lamentava a inexistência de comentadores negros nas
TV's nunca chegue a primeiro-ministra. Se isso acontecesse,
estaríamos obrigados a ter comentadores negros nas televisões.
Fiquei sem saber, até ao final da entrevista, quantos comentadores
negros a senhora acha que cada TV deveria ter.
Que percentagem
de "pivot's" negros deveriam a SIC, a TVI e a RTP ter? Que
percentagem de negros deveria ter a equipa nacional de natação, nos
jogos olímpicos? Quando a gente escolhia o Zé Manuel para a nossa
equipa, não tínhamos percentagens na cabeça. E a senhora africana
que estava a ser entrevista nem sequer sabe quanto negros há em
Portugal - essas estatísticas não existem - para conseguir fixar
uma percentagem de neurocirurgiões negros, por exemplo, nos serviços
do Hospital de Santa Maria.
A entrevistadora da senhora negra
falhou redondamente ao deixar de fazer uma pergunta óbvia: qual a
percentagem de comentadores negros deveria cada televisão ter? 5%?
10%? Será que a senhora africana que estava a ser entrevistada tinha
em mente uma percentagem, proporcional à população negra
portuguesa? Mas ninguém sabe esse número porque nenhum governo
teve, até hoje, a coragem de fazer estatísticas racializadas! Ou
será que a senhora em causa apenas queria um comentador negro, algo
de simbólico, somente?
Eu não quero comentadores brancos,
negros, chineses, indianos ou naturais das Ilhas Fiji. Quero
comentadores que saibam comentar. E que estejam nas Tv's como
comentadores porque são bons comentadores, não porque têm uma
determinada cor de pele. Quero comentadores que sejam os Zé Manuéis
dos comentadores da televisão. E que essa seja a única razão
porque estão na televisão, a cometar os mais variados
assuntos.
Tal como, se tivesse um aneurisma e necessitasse de
um neurocirurgião, faria questão de ter o melhor neurocirurgião
possível. Fosse branco, negro, chinês, indiano ou natural das Ilhas
Fiji. Colocar a raça à frente da meritocracia e da capacidade é
racismo. Apenas com uma cor diferente.
A AIMA anunciou que tem 55 mil pedidos de reagrupamento para despachar
Quem pode ser reagrupado Cônjuge ou parceiro em união de facto (comprovada há mais de dois anos). Filhos menores ou incapazes a carg...
-
Há 50 anos, o número total de cidadãos estrangeiros em Portugal não era superior aos 32 mil. Hoje em dia, são mais de 1,5 milhões e em sete ...
-
No livro "Por dentro do Chega" , o jornalista Miguel Carvalho fala de "um partido de fanáticos que não faz grande reflexão...
-
S ome excerts of this study from United Nations : "(...) Focusing on these two striking and critical trends, the present study addre...
