Ainda há poucos dias uma senhora
africana a ser entrevistada queixava-se amargamente de que não havia
um único comentador negro nas televisões. A entrevistadora
interrompeu e disse qualquer coisa como "bem no futebol há um,
Abel Xavier..." ao que a senhora respondeu "bem, mas isso é
no futebol." Como quem diz, isso não conta...
Não sei
quantos neurocirurgiões negros há em Portugal. Mas sei que há
muitos jogadores de futebol negros. Já no MacDonald' vêem-se
algumas mocinhas negras. Mas a maioria dos empregados e empregadas
continua a ser branca.
Felizmente nunca tive um problema de
saúde grave, como por exemplo um aneurisma no cérebro. Muitas vezes
os aneurismas nem sequer são operáveis. Tratam-se de uma espécie
de bolhas, que surgem quando a parede de uma veia enfraquece e a
pressão do sangue provoca essa bolha. Se rebentar temos aquilo que
se chama um AVC.
Fartei-me de jogar à bola com miúdos
negros, quando tinha 9, 10 anos, em Angola. Havia sempre dois
problemas nesses jogos de rua. A bola, normalmente essa nossa, dos
brancos. Mas como éramos sempre uma minoria tínhamos que contar com
os miúdos negros para fazer duas equipas em condições, 7 ou 8
jogadores de cada lado.
O segundo problema era uma questão de
igualdade de condições. As equipas eram mistas, obviamente. A
maneira de escolher os jogadores, para cada equipa era curiosa: os
dois mais velhos ficavam frente a frente, separados 2 ou 3 metros,
Começavam a andar, colocando cada pé junto ao calcanhar do outro
pé.
Quem ficasse com o pé sobre o pé do adversário, no
último passo, tinha direito a fazer a primeira escolha - e essa ia
logo para o melhor craque de todos, independentemente da cor, como é
óbvio. Depois, a escolha era alternada. O capitão de uma equipa
escolhia o segundo jogador, o capitão da equipa adversária escolhia
o terceiro jogador e assim por diante, até as equipas estarem
concluídas - e mistas, obviamente.
Mas o problema da
igualdade de condições, de vantagens injustificáveis tinha a ver
com o calçado. Nós, brancos, tínhamos sapatos e ténis. Os miúdos
negros que jogavam connosco - e que, regra geral, eram a maioria -
jogavam descalços. Para equilibrar as condições, nós jogávamos
também descalços.
E isto acontecia tinha eu 9 ou 10 anos,
como disse mais acima. O jogo era na rua, as balizas eram pedras
amontadas, em cada linha de fundo imaginária e era preciso estar de
olho na ponta de cada rua, por causa dos carros.
Enquanto
andei na escola primária, jogava descalço - e ao princípio era
muito duro. O asfalto costumava estar quente e nas disputas de bola,
lá iam de vez em quando os dedos a esfregar esse mesmo asfalto.
Estava tão habituado a jogar descalço que, quando fui para o liceu,
continuei com esse hábito.
Mas aí eu era uma minoria. E só
aí percebi como tinham razão os meus amigos negros. Até hoje,
tenho dois dedos do pé direito tortos, fruto de uma disputa de bola
com um colega branco, forte e bem calçado.
Lembro-me que o
jogador mais cobiçado - e o primeiro a ser escolhido pelo capitão
que ganhava a prioridade - era um miúdo negro, José Manuel, se a
memória não me falha. Era uma mistura de Figo com Ronaldo, um
craque a fintar, uma capacidade de acelerar que nos deixava a todos,
adversários, para trás.
Em suma, era o melhor. Por isso é
que, naquela espécie de sorteio para decidir quem era o primeiro
capitão a escolher, o Zé Manual era a preferência, sempre. Apenas
porque era bom. Muito bom.
Voltando ao princípio e à senhora
africana que lamentava não haver comentadores negros na televisão,
lembrei-me logo do Zé Manuel. Jogava porque era bom, não porque era
negro. Fosse branco, azul ou amarelo, o Zé Manuel tinha sempre lugar
em qualquer equipa.
Não tinha a ver com proporções ou com o
número de jogadores brancos ou negros. Ao ouvir o lamento da senhora
africana lembrei-me também de outra questão. A selecção francesa
de futebol, nos mundiais de 2018 e 2022 tinha uma maioria de
jogadores com ascendência africana ou caribenha.
A exigência
da senhora africana, que queria comentadores negros nas tv's, leva-me
a perguntar: porque é que há mais jogadores negros do que brancos
nas equipas de basquetebol americanas? E porque é que, nas provas de
natação nas olimpíadas, não se vê um nadador negro?
Porque
é que nas corridas de 100 metros, muitas vezes temos finais sem um
único corredor branco? Porque aqui, o que conta é o Zé Manuel.
Equipa que o tivesse raramente perdia. O Zé Manel era o nosso Usain
Bolt. Tal como o Ronaldo é o Ronaldo e equipa que o tem ganha mais
do que perde.
Oxalá essa senhora africana que estava a ser
entrevistada e lamentava a inexistência de comentadores negros nas
TV's nunca chegue a primeiro-ministra. Se isso acontecesse,
estaríamos obrigados a ter comentadores negros nas televisões.
Fiquei sem saber, até ao final da entrevista, quantos comentadores
negros a senhora acha que cada TV deveria ter.
Que percentagem
de "pivot's" negros deveriam a SIC, a TVI e a RTP ter? Que
percentagem de negros deveria ter a equipa nacional de natação, nos
jogos olímpicos? Quando a gente escolhia o Zé Manuel para a nossa
equipa, não tínhamos percentagens na cabeça. E a senhora africana
que estava a ser entrevista nem sequer sabe quanto negros há em
Portugal - essas estatísticas não existem - para conseguir fixar
uma percentagem de neurocirurgiões negros, por exemplo, nos serviços
do Hospital de Santa Maria.
A entrevistadora da senhora negra
falhou redondamente ao deixar de fazer uma pergunta óbvia: qual a
percentagem de comentadores negros deveria cada televisão ter? 5%?
10%? Será que a senhora africana que estava a ser entrevistada tinha
em mente uma percentagem, proporcional à população negra
portuguesa? Mas ninguém sabe esse número porque nenhum governo
teve, até hoje, a coragem de fazer estatísticas racializadas! Ou
será que a senhora em causa apenas queria um comentador negro, algo
de simbólico, somente?
Eu não quero comentadores brancos,
negros, chineses, indianos ou naturais das Ilhas Fiji. Quero
comentadores que saibam comentar. E que estejam nas Tv's como
comentadores porque são bons comentadores, não porque têm uma
determinada cor de pele. Quero comentadores que sejam os Zé Manuéis
dos comentadores da televisão. E que essa seja a única razão
porque estão na televisão, a cometar os mais variados
assuntos.
Tal como, se tivesse um aneurisma e necessitasse de
um neurocirurgião, faria questão de ter o melhor neurocirurgião
possível. Fosse branco, negro, chinês, indiano ou natural das Ilhas
Fiji. Colocar a raça à frente da meritocracia e da capacidade é
racismo. Apenas com uma cor diferente.

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