terça-feira, 21 de abril de 2026

Jean Raspail, "O Campo dos Santos" - Os parágrafos finais


"(…) Quando as centenas de embarcações apareceram, as suas tripulações deram uma boa gargalhada: uma frota europeia, com todas as luzes acesas, tinha-se alinhado num vasto semi-círculo à entrada da baía. Parecia que estavam a aguardar uma revista. Os navios dispararam uma salva de cartuchos de festim, um após o outro. Depois, uma voz trovejou através de megafones, primeiro em francês, depois em inglês: 'Recuem! Recuem! A França não vos pode acolher! A Europa não vos pode acolher!' 

A armada do Terceiro Mundo respondeu com um grito colossal e uníssono. Não era um grito de guerra. Era a vasta e primitiva voz da esperança, das boas-vindas, uma espécie de berro alegre e triunfante, como a descoberta de um brinquedo por uma criança. E os navios continuaram a avançar."

"As centenas de embarcações começaram a entrar no porto, uma após a outra, numa longa e silenciosa procissão. Não houve toques de trombetas, nem bandeiras a acenar. Apenas um avanço lento e inexorável. Da costa, os observadores — os poucos que restaram — assistiam atónitos, como que hipnotizados. Não havia gritos, nem resistência. Apenas o suave ondular das vagas contra os cascos e o arrastar de inúmeros pés à medida que as primeiras ondas de humanidade começavam a derramar-se nas praias."

"Eles estavam em todo o lado, uma maré humana: homens, mulheres, crianças, idosos, todos a sair dos navios, com os rostos marcados por uma mistura de exaustão e de um estranho e silencioso triunfo. Não eram um exército invasor no sentido tradicional, mas uma força de números absolutos, avassaladora pela sua simples presença. O ar encheu-se de um murmúrio, de uma nova língua, de um novo odor. A Europa, ao que parecia, já não era a Europa."

(…)

"O sangue corria pelas ruas do bairro de Grenelle. O último punhado de homens, com a arma na mão, estava encurralado na Place du Commerce, diante da igreja. O padre, com a estola ao pescoço, levantou-se e pronunciou em voz alta as palavras da absolvição. Os homens ajoelharam-se, o rosto coberto de pó, e de sangue. Tinham lutado até ao fim, por aquilo que lhes pertencia e que agora era de todos."

"No mesmo momento, o arcebispo de Paris, com a sua grande cruz de ouro no peito, caminhava, na cabeça de um cortejo de clérigos, pelas avenidas do bairro de Trocadero, para receber os novos missionários da Fé. O coro entoava o Te Deum. E no mar, mais ao largo, os barcos continuavam a descarregar a sua carga de miséria. A noite de Paris estava cheia de vozes e de gemidos."

"Um homem na Praça da Concordia, ergueu uma bandeira vermelha. Outro, num gesto de desespero, fez o sinal da cruz. E a multidão continuou a avançar, sem se importar com os mortos, sem se importar com os vivos. E os últimos homens na Place du Commerce gritaram, e depois calaram-se."

Jean Raspail, "O Campo dos Santos"

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