Ao contrário do autor deste texto, não vou apresentar nem propaganda nem apelos às emoções, e muito menos raciocinios falaciosos. Vou sim continuar a apresentar dados concretos para reflexão sobre as políticas públicas que Portugal deverá adoptar em matéria de imigração. É a terceira publicação da série "O que pensam os muçulmanos na Europa?"
Vamos aos dados.
A liberdade de expressão é um dos pilares da civilização europeia. Não significa o direito a dizer apenas aquilo que os outros consideram respeitável. Significa precisamente o direito de dizer, desenhar, escrever ou publicar aquilo que pode ofender profundamente outra pessoa, desde que dentro dos limites estabelecidos pela lei.
Numa sondagem realizada pela JL Partners para o Policy Exchange em Abril de 2026, 52% dos muçulmanos inquiridos defendiam que criar ou mostrar publicamente imagens de Maomé deveria constituir crime. Mais ainda: 63% defendiam a criminalização da queima pública de livros sagrados.
Mas o número que me parece mais grave é outro. 24% consideravam que a violência poderia constituir uma resposta legítima perante alguém que queimasse o Corão ou representasse Maomé, ou seja, UM EM CADA QUATRO entende que a violência é uma reação aceitável.
Dez anos antes, numa sondagem realizada em 2016, apenas 4% dos muçulmanos britânicos inquiridos concordavam que qualquer publicação deveria ter o direito de publicar imagens de Maomé. Quando a pergunta passava para imagens que ridicularizassem Maomé, o valor descia para 1%. Portanto, 99% dos muçulmanos em Inglaterra defendem proibição total, números que fazem inveja a Kim Jong Un.
No mesmo estudo, 24% manifestavam simpatia por grupos que organizassem violência para proteger a sua religião e 18% manifestavam simpatia por pessoas que utilizassem violência contra aqueles que ridicularizassem o profeta.
Como é óbvio, uma sociedade livre não pode aceitar que uma proibição religiosa individual seja convertida numa proibição dirigida aos restantes cidadãos e, muito menos, que a violência seja considerada uma reacção legítima contra quem não respeita uma regra de uma religião à qual não pertence.
A diferença é elementar. “Eu não posso fazer isto porque a minha religião o proíbe” chama-se liberdade religiosa. “Tu não podes fazer isto porque a minha religião o proíbe” é já uma reivindicação de poder sobre terceiros.
Mas avancemos.
A sondagem de 2026 perguntou também aos muçulmanos das zonas estudadas o que pensavam sobre diferentes organizações extremistas ou terroristas.
25% manifestavam uma opinião favorável sobre o Hamas. 23% tinham uma opinião favorável sobre a Guarda Revolucionária Islâmica iraniana. 20% sobre os Houthis. 17% sobre o Hezbollah. 16% manifestavam uma opinião favorável sobre o Estado Islâmico, ISIS. 15% sobre a Al-Qaeda. 15% sobre o Al-Shabaab. 14% sobre os Talibãs afegãos.
Naturalmente, isto significa igualmente que muitos outros inquiridos rejeitavam estas organizações. No caso do ISIS, por exemplo, 45% tinham uma opinião desfavorável e apenas 16% favorável; relativamente à Al-Qaeda, eram 43% contra 15%.
Mas quando estamos perante organizações responsáveis por terrorismo, assassínios em massa, perseguições religiosas e algumas das formas mais brutais de violência política contemporânea, 15% ou 16% não são números insignificantes só porque constituem uma minoria.
Estamos a falar de percentagens próximas do valor eleitoral do Partido Socialista. Há depois outro conjunto de respostas particularmente perturbador. Perguntaram a mais de 3.000 muçulmanos britânicos quem tinha sido responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2001.
52% disseram não saber, 31% responsabilizaram o Governo americano, 7% responsabilizaram os judeus, e apenas 4% identificaram a Al-Qaeda ou grupo semelhante como responsável. Na amostra de controlo da população britânica, 71% identificaram correctamente a Al-Qaeda.
Isto é relevante porque as teorias da conspiração não são apenas excentricidades intelectuais. A crença de que uma comunidade está permanentemente cercada por inimigos, manipulada por poderes ocultos e vítima de conspirações externas constitui terreno extremamente fértil para a radicalização política.
E é aqui que começamos a perceber porque considero insuficiente discutir imigração apenas em termos de emprego, salários, contribuições fiscais ou necessidade de trabalhadores.
Estamos a importar pessoas, e essas pessoas trazem ideias. A esmagadora maioria pode nunca cometer um acto violento. Muitas podem tornar-se cidadãos exemplares. Algumas abandonarão completamente estas concepções. Outras já as rejeitam desde o início. E outras, inevitavelmente, vão cometer atentados terroristas ou auxiliar na sua organização.
Quando uma parte comparável ao PS de uma comunidade com milhões de pessoas considera aceitável criminalizar actos de expressão que são legais numa democracia europeia, quando uma parcela considera legítima a violência em resposta à blasfémia, quando encontramos percentagens de dois dígitos de simpatia por organizações terroristas e crenças anti-semitas muito superiores às da população geral, estamos perante uma questão política de extrema gravidade no que toca a preservar a civilização europeia.
Obviamente, nenhuma sociedade sensata deveria ter medo de conhecer os números por receio de que alguém os considere inconvenientes.
Conhecer estes dados não é odiar muçulmanos. É compreender o pensamento de milhões de pessoas que pretendem fixar-se na Europa. Pensamento que não deriva de qualquer imposição ou medo, mas sim de escolhas individuais. Milhões de escolhas individuais.
Há ainda uma outra questão óbvia. Se estas percentagens já existem numa comunidade minoritária, que alterações políticas serão exigidas quando essa comunidade representar uma parcela muito maior do eleitorado?
A História raramente tem piedade das sociedades que se recusam a fazer perguntas desagradáveis enquanto ainda têm liberdade para lhes responder. Na próxima publicação saímos do Reino Unido e vamos para França.
E aí encontramos talvez o dado mais surpreendente de toda esta série: em vários indicadores, os jovens muçulmanos não estão a tornar-se mais seculares e próximos dos valores dominantes da sociedade francesa. Está a acontecer precisamente o contrário.
Fontes: Policy Exchange/JL Partners, “Understanding Islamopopulism”, 2026; Policy Exchange/ICM, “Unsettled Belonging”, 2016; Channel 4/ICM, “What British Muslims Really Think”, 2016


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