Parece um guião de uma sociedade de há 200 anos ou mais, mas acontece em 2026. Está a acontecer, na África do Sul. Orania é uma cidade pequena. Não é oficialmente uma cidade “legalmente só para brancos”, mas na prática só pessoas brancas vivem lá. Foi fundada após o fim do apartheid na África do Sul, há mais de 30 anos, por um grupo de afrikaners – que queria preservar a sua cultura, língua e estilo de vida.
Os afrikaners são um grupo étnico branco da África do Sul, descendentes de colonos europeus (principalmente holandeses, alemães e franceses) que chegaram ao país nos séculos XVII e XVIII. São cerca de 5% da população da África do Sul. Não há uma lei oficial que diga “apenas pessoas brancas podem entrar ou viver aqui” – mas é o que acontece. Os vizinhos consideram Orania um antro de racismo, mas os moradores acreditam que esta é a única forma de preservar a cultura da minoria branca.
Nesta espécie de condomínio fechado, descreve o Holod, para viver em Orania é preciso passar – com sucesso – por uma entrevista com uma comissão local. Mas não há registo de um negro ter tentado obter autorização de residência, pelo menos com o processo até ao fim. Porque os requisitos já excluem quem não for branco, quase sempre. Porque o lema oficial não é “não aceitamos pessoas negras” – mas sim “aceitamos quem se encaixa na nossa cultura”. Esse desvio evita uma violação direta da lei (mas cria exclusões na mesma).
Os candidatos devem falar afrikaner, respeitar as tradições dos afrikaner e ser protestantes. Também não podem ter antecedentes criminais, nem podem viver com um parceiro sem serem casados. A base legal que os locais evocam é o direito constitucional à liberdade de associação e autonomia cultural na África do Sul. É que a África do Sul tem uma das constituições mais fortes do mundo em termos de direitos individuais e de grupos.
O direito à liberdade de associação evoca que as pessoas podem escolher com quem querem viver ou formar comunidades. Grupos criam comunidades fechadas — desde que não violem leis explícitas. Os afrikaners locais evocam também, como já foi referido, direitos culturais. Também têm um modelo interno de propriedade privada – na prática, quem quiser viver lá precisa de ser aprovado pela comunidade local.
No início da década de 1980, foi construído em Orania um sistema de abastecimento de água – e a cidade ficou deserta. Depois foi a leilão. O Departamento de Recursos Hídricos ainda tentou transferir Orania para outras agências governamentais, mas ninguém a quis. O empresário Jacques Pretorius comprou mas os afrikaners começaram a angariar fundos e compraram depois a cidade ao empresário.
Algumas das casas vazias e edifícios abandonados já tinham sido ocupados por colonos negros – mas os afrikaners foram expulsando os negros à força, ameaçando por vezes com cães. Orania foi oficialmente “reaberta” a 11 de abril de 1991.Uma rotina que se destaca na economia local: Orania evita contratar trabalhadores de fora (especialmente negros, o que é comum no resto do país). Os locais fazem de tudo. Há forte incentivo ao empreendedorismo local. É um local de autossuficiência.
Orania tem uma moeda local, uma moeda própria, a Ora. Só circula dentro da cidade; mas serve mais como símbolo de autonomia do que como sistema económico real. Na escola, ensina-se em em língua afrikaner. É dado destaque à história e cultura afrikaner. A nível político, nova particularidade: não há uma Câmara Municipal. Oriana é administrada por uma organização privada, como se fosse ma empresa privada: os moradores compram “direitos de residência”, como se fossem acções, uma participação na empresa. Há um conselho local que decide quem pode viver lá.
Está isolada mas tem internet e infraestrutura modernas, além de projetos de energia solar. Orania fica numa “zona cinzenta”: é legalmente defensável (a tal evocação de direitos individuais e culturais) mas é alvo de críticas a nível social e moral (porque reproduz, na prática, separação racial). Apesar deste cenário, deste regime, a população de Orania cresce a cada ano que passa: aumentou 5,25% entre 2023 e 2024. Tem pouco mais de 3 mil habitantes; em 2011, tinha 892 habitantes .
23 Abril, 2026
Zap.aeiou

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