sábado, 12 de setembro de 2026

O que é taqiya, a doutrina islâmica que justifica o uso da mentira

 


Em 17 de outubro, quando um foguete atingiu as imediações de um hospital em Gaza, as primeiras informações divulgadas pelo Hamas eram de que o ataque fora promovido por Israel, destruíra a unidade de saúde e deixara cerca de 500 mortos.

Nos dias seguintes, ficou evidente que a explosão atingiu o estacionamento do hospital e não o prédio. A Agência France Press, citando relatórios de inteligência, calculou o número de mortos em 50 em vez de 500. E surgiram claros indícios de que a explosão foi causada por um foguete dos terroristas, não um ataque de Israel.

A essa altura, entretanto, a mentira já havia sido usada para mobilizar protestos, alguns deles violentos, ao redor do mundo.

A guerra é território fértil para a propagação de inverdades. Mas o Islã, em especial, oferece uma justificativa moral para o uso estratégico do engano. A prática tem um nome próprio no árabe: taqiya.

O que é taqiya

Historicamente, o termo taqiya foi usado em dois sentidos. O primeiro é a ocultação da própria fé islâmica quando isso trouxer risco de vida. Ou seja: um fiel vivendo em um país de maioria não-muçulmana pode esconder sua identidade religiosa de forma estratégica.

O segundo é o uso da mentira como estratégia na jihad, ou guerra santa (qualquer guerra que expanda a área sob controle do Islã).


Um dos principais estudiosos do tema, o escritor Raymond Ibrahim explica que a ideia de dissimulação (com ou sem o rótulo de taqiya) vem desde a origens da religião islâmica, no século VII. “Eu diria que, no Islã, a ideia de que os fins justificam os meios é muito proeminente. Desde que você tenha um bom objetivo de acordo com o Islã, como conquistar terras para a religião ou derrotar os infiéis, existe bastante flexibilidade quanto aos métodos”, disse ele em entrevista à Gazeta do Povo

Ibrahim diz que a prática é adotada de forma constante por organizações terroristas como o Hamas. “Para o Hamas, a verdade é apenas uma ferramenta no arsenal contra Israel. Tudo o que puder ser dito e que funcione é considerado bom o bastante”, ele explica.

O poder da comunicação moderna aumentou a utilidade da taqiya – como demonstra o caso do hospital em Gaza.

As peculiaridades filosóficas do Islamismo

Do ponto de vista filosófico, a visão muçulmana sobre a guerra se diferencia da do Cristianismo — que desenvolveu uma doutrina de “guerra justa”.

E existem três razões principais para isso.

Em primeiro lugar, está a mensagem do próprio Jesus Cristo que ensinou a dar a outra face e andar duas milhas se alguém lhe forçar a andar uma. A tradição cristã exalta os mártires que não negaram a fé mesmo sob ameaça de espada. Já no Islã, “ame os seus inimigos” não é um mandamento. E negar a fé publicamente não é um problema, desde que isto faça parte de um jogo de dissimulação para mais adiante surpreender o inimigo.

Em segundo lugar, porque o Cristianismo absorveu princípios da filosofia grega — a ponto de Friedrich Nietzsche dizer, em tom acusatório, que a religião cristã é “platonismo para o povo”. A figura fundadora da filosofia grega é a do filósofo (Sócrates) que prefere ser condenado a morte a ter de renunciar à verdade. Platão, por sua vez, escreveu que é preferível sofrer uma injustiça a cometê-la.

Em terceiro lugar, porque o Iluminismo, com sua ênfase na razão e nos direitos naturais de todos os homens, foi muito mais influente no Ocidente do que nos países muçulmanos.

O que dizem os textos sagrados

Embora estabeleça parâmetros éticos rigorosos, a doutrina islâmica trata os infiéis (não-muçulmanos) como uma categoria à parte. Por exemplo: o versículo 3:28 do Corão prega a impossibilidade de alianças com não-muçulmanos. “Que crentes não tomem descrentes para amigos, dê preferência a crentes – e quem quer que isso faça não tem qualquer ligação com Alá – a não ser que acauteladamente vos guardeis contra eles."

Um dos principais comentaristas do Corão, Ala-Maududi escreveu sobre esse trecho que "Isso significa que é legítimo para um crente, desamparado sob as rédeas dos inimigos do Islã e em perigo iminente de sofrimento e perseguição severa, manter sua fé escondida e agir de para dar a impressão de que ele está do lado de seus inimigos"

Sami Mukaram, que foi professor de Estudos Islâmicos na Universidade Americana de Beirute, escreveu que a taqiya tem uma “importância fundamental” para o Islã, e que a prática é recorrente na política islâmica moderna.

Mas nem é preciso ir tão longe: Abu Hurairah, uma das principais fontes sobre a ida de Maomé, atribui ao próprio fundador do Islã o ensinamento de que “guerra é dissimulação."

Maomé também ensinou a seus seguidores que a mentira é aceitável em três casos: o primeiro, quando um marido quer agradar sua mulher; o segundo, para causar a reconciliação de dois amigos que estão brigados. O terceiro é a guerra.

(Continua

 

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