sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Luís Neves - um caso de Polícia

 

Todos estes episódios em torno de Luís Neves fazem-me lembrar uma figura  ímpar da política brasileira, Adhemar de Barros, o homem que "apadrinhou" a expressão: "Eu roubo, mas eu faço" - o nosso "isaltino", que deu origem ao verbo "isaltinar", tão comum nas redacções dos jornais.

Adhemar de Barros foi  prefeito da cidade de São Paulo e governador do estado. A expressão "Eu roubo, mas eu faço", inicialmente  foi cunhada por um adversário político, Paulo Junqueira, que acusava Adhemar de Barros de apenas delapidar e roubar o erário público. 

Os "spin doctors" (assessores de Imprensa) de Adhemar de Barros tiveram uma ideia genial: em vez de contra-atacarem, assumiram que sim senhora, era verdade, Adhemar de Barros roubava. Mas também fazia: embora houvesse desvios de dinheiros públicos, o político realizava grandes obras públicas (como hospitais e estradas) que beneficiavam a população, ao contrário de outros que "não faziam nada".

Outra figura ímpar da política brasileira é um célebre palhaço e humorista, cujo slogan de campanha pediu meças ao de Adhemar de Barros: "Vote Tiririca, pior não fica". A originalidade foi recompensada nas urnas: em 3 de outubro de 2010, Tiririca tornou-se o quinto Deputado Federal mais votado em toda a história do Brasil, naquele ano, sendo eleito pelo estado de São Paulo com 1.348.295 (6,35%) votos. Á sua frente ficaram apenas nomes sonantes da política brasileira: Eduardo Bolsonaro, Enéas Carneiro, Nikolas Ferreira e Celso Russomanno.

Voltando ao assunto que aqui faz título, são escassos os factos que hoje nos colocam à frente - mas que vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar: temos um personagem que se travestiu de outras figuras: um excepcional polícia, Director-Geral da Polícia Judiciária durante um ror de anos e um ministro-estrela, o homem certo no lugar certo, o quarto Ministro da Administração Interna do Governo de Luís Montenegro.

Para quem já esteve numa esquadra da PSP, sujeito a interrogatório não é surpresa nenhuma a existência do "polícia bom" e do "polícia mau." Há quem ache que Luís Neves foi um excepcional director-geral da Polícia Judiciária e que isso "apaga pequenos" erros, como a não entrega da declaração de interesses, dar umas cacetadas a um detido em prisão preventiva ou ter um "tanque" com uma escada de metal, própria para quem quer subir e descer de uma piscina. 

Outros pensam que a actuação de Luís Neves é inconcebível e inaceitável, indigna de um ministro, que já deveria ter-se demitido, mais que não fosse pela forma arrogante como ignora e insulta a Comunicação Social, atirando-lhes com expressões impróprias de qualquer político: 

"No meu tempo, irei esclarecer ponto por ponto todas as questões, com toda a transparência", garante Luís Neves. "O ministro da Administração Interna promete falar com os jornalistas 'em momento próprio', sem adiantar uma data específica." de acordo com a SIC Notícias.

Convém aqui lembrar que foi Pedro Passos Coelho a primeira voz a levantar-se contra a nomeação de um Director-Geral da Polícia Judiciária para um cargo de ministro. Será que PPC sabe algo que todos nós ignoramos?

Quanto ao interrogatório na esquadra, que há pouco referia, há sempre dois agentes que desempenham o papel do "polícia bom" e do "polícia mau". O primeiro chega ao pé de nós e diz: "Eh pá, é melhor confessares tudo, se não vem aí o meu colega e olha que ele não é para brincadeiras, não é um gajo calmo como eu..."

À falta de confissão, entra em acção o "polícia mau": agressivo, aos berros, a dar cacetadas na mobília com o bastão de metal extensível. "Este c....., f....da...p...." não quer falar? Eu sei como o pôr a falar. Mete-o ali na cela dos preventivos onde estão os três "blacks" que apanhámos hoje. Diz-lhes para lhe darem o tratamento especial que ele, no fim, confessa tudo e mais alguma coisa que nem sequer fez..."

E, enfim, as perguntas e comentários que ouço todas as manhãs, no cafézinho onde leio o Correio da Manhã, a TV ligada no canal do CM e tendo como companhia outros reformados como eu: que papel irá o ex-Director-Geral da Polícia Judiciária e actual Ministro da Administração Interna, desempenhar? Sim, porque entre os lamentos do custo de vida, as leituras de A Bola e os apelidos pouco recomendáveis atribuídos à maioria dos membros do governo, muita gente está a ficar mais do que  farta das histórias - sempre adiadas, de Luís Neves.

Era bom que se colocasse um fim neste ror de episódios que já parece uma das mais conhecidas opera-bufa, "O Barbeiro de Sevilha" ("Largo al factotum"), com personagens como o criado astuto, o servo inteligente, trapaceiro e engenhoso, o velho resmungão, um homem idoso e avarento, etc. Há para todos os gostos, basta que Luís Montenegro escolha um membro do elenco.

 

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