sábado, 5 de setembro de 2026
Luís Neves - mais do que um simple caso de polícia
Uma das muito curiosas experiências que tive, no jornalismo, foi quando um determinado indivíduo - alguém que conhecia, através de amizades comuns - me telefonou a dizer que precisava de um favor. Nada que me surpreendesse, porque políticos e homens de negócios fazem parte da "clientela" que um jornalista tem que suportar, com pedidos que se dividem em duas categorias - 1) têm uma notícia para nos dar, cujo objectivo é tramar um adversário político mas querem que a notícia tenha destaque, que vá para a primeira página, por exemplo - 2) tentam saber quem fez chegar ao jornal uma notícia específica que, regra geral, tem a ver com eles, que foram o próprio alvo e por isso se tramaram. Não perdoam e querem saber quem foi o "bufo da cooperativa".
Num desses casos, o indivíduo foi directo ao assunto: "Paulo Reis, saiba-me quem foi que fez essa notícia que eu dou-lhe cinco mil contos." Desviei a conversa, já não sei com que desculpa e ficou prometido bebermos um café para a outra semana. Isso, como eu lhe expliquei, dar-me-ia tempo para tentar descobrir o escriba da notícia - um pequeno 1/8 de página, já na secção dos diversos do jornal.
Larguei o telefone e fiquei ali, a acabar um cigarro e a fazer um esforço enorme para não me rir. O autor da notícia - um "fait-divert" de escassa importância, relacionado com as autárquicas de 1989 - tinha sido eu próprio. Cinco mil contos, naquela altura era muito dinheiro. Para se ter uma ideia, essa maquia corresponderia hoje a cerca de 43.000 euros. Na época da transição para o euro, em 2002, o primeiro-ministro tinha um salário, já com representações, de 5.500 euros brutos por mês (cerca de 1.100 contos). Claro que esse café nunca se concretizou, graças a repetidas desculpas da minha parte.
Vem tudo isto a propósito de o ministro da Administração Interna, em público, gabar-se de já saber quem são as "fontes das notícias". É uma triste manifestação de baixeza política que Luís Neves venha agora a tratar os jornalistas como troféus de caça, tipo javali de Setúbal pendurado no salão do monte alentejano. Que lhe adianta - e que tipo de mentalidade está por detrás disto - saber, eventualmente, quem passou determinadas informações aos jornalistas? E se já sabe - diz ele - como é que o conseguiu?
Fez escutas telefónicas não autorizadas? Recorreu à análise de metadados, o que é proibido por lei? Pediu aos seus "fiéis" na Judiciária que vigiassem os colegas, andando-lhes na peugada, para saber se eles se encontravam com jornalistas? Mandou seguir os jornalistas que mais - e melhores - notícias davam?
O brevíssimo Ministro da Administração Interna, nesta história das "fontes", confundiu o Germano com o Género Humano. Ao dizer aos jornalistas que já sabe quem são as "fontes", mostra que o mais importante, para ele, é descobrir as "Gargantas Fundas" da PJ. O mais importante para nós, povo, é saber se o ex-Director da PJ e agora - por pouco tempo - MAI, cumpriu a lei, se não pôs a mão ao bolso, se não fez favorzinhos aos amiguinhinhos". Em suma, o que fez e o que não fez, o que deveria ter feito e não fez.
Toda a gente se está a borrifar para quem deu as informações aos jornalistas. Toda a gente quer é saber o que é que Luís Neves fez, pormenores dos atrelados, do tanque que afinal até tinha uma escada de metal para os banhistas subirem e descerem. Aliás, dos reformados que partilham comigo o Correio da Manhã e A Bola, na pequena pastelaria onde tomo o pequeno-almoço, só ouvi até agora elogios - não ao ex-Director da PJ nem ao ministro da Administração Interna - mas sim, aos "jornalistas que atiram cá para fora essas malandrices e essa jogadas, que esses é que os lixam e bem (sic)"
Já agora, uma vez que Luís Neves falou em ter apanhado as "fontes", com o olhar triunfante do caçador que se senta ao lado do leão morto,espingarda na mão direita, para a foto do costume, deixe-me contar-lhe uma história, meu caro Luís Neves (os meus leitores perdoarão a informalidade, mas cruzámo-nos várias vezes na Praia da Luz quando ambos investigávamos o "Caso Maddie").
Tenho quase a certeza de que nunca ouviu falar de Daniel Ellsberg. Era economista e analista militar, na Rand Corporation. Teve acesso a um estudo ultra-secreto do governo dos EUA, sobre uma série de matérias, especialmente quanto ao conflito no Vietname. No documento já se admitia que, de um ponto de vista militar, a guerra estava perdida. No mesmo relatório, reconhecia-se que o governo dos EUA tinha mentido deliberadamente ao Congresso e ao público, ao afirmar exactamente o contrário do que o relatório dizia.
Ellsberg comprou duas fotocopiadoras, instalou-as na cave da casa e, terminado o jantar, descia as escadas e todas as noites se entregava à mesma tarefa: fotocopiar, uma a uma, as cerca de 14 mil páginas do relatório. Era um trabalho insane, porque Daniel Ellsberg tencionava distribuir cópias do documento aos maiores jornais americanos, o que implicava fotocopiar 28 mil páginas.
Comprou mais uma impressora e chegou a um ponto em que a tarefa se transformou num empreendimento familiar, com os dois filhos mais velhos a colaborarem com o pai. Daniel Ellberg enviou cópias das cerca de 14.000 páginas aos dois jornais americanos de maior prestígio, o New York Times e o Washingt Post, em 13 de Junho de 1971. O dossiêr passou a ser conhecido pelo nome de "Pentagon Papers" e a sua publicação obrigou a admistração norte-americana a rever toda sua estratégia. Em 27 de Janeiro de 1973, apenas dois anos após a divulgação dos "Pentagon Papers", foram assinados os "Acordos de Paris", que colocaram um fim à guerra,
A fonte dos "Pentagon Papers", Daniel Ellsberg entregou-se às autoridades e começo a ser julgado em 1972. Em maio de 1973 o juiz deu o caso como encerrado e arquivou permanentemente todas as acusações contra Ellsberg e Anthony Russo, que tinha colaborado na produção dos "Pentagon Papers". Ellsberg morreu em Junho de 2023, aos 92 anos.
Com esta pequena história, caro Luís Neves, queria que percebesse duas coisas: Primeiro, como caçador, você é um fracasso. Anda nesta telenovela há semanas e, em vez de mostrar caça da grossa, tem aparecido com umas pífias revelações, a falar em tanques quando tem lá uma piscina (*) Talvez seja devido à escassez de caça ou à sua falta de pontaria. Segundo, você parece-me mais talhado para um papel do Ghostbuters. Caçava na mesma, mas aí era caça da grossa, o terrível monstro Gozer, não um fantasma comum mas sim uma entidade maligna e interdimensional de nível divino - um adversário à altura de quem caça fantasmas na Polícia Judiciária, que tem cerca de 2.000 investigadores.
(*) A classificação entre tanque e piscina reside na finalidade utilitária versus de lazer, refletida na ausência ou presença de sistemas complexos de circulação e filtragem de água, geometria construtiva e no enquadramento legal e fiscal.
As principais diferenças visíveis entre uma piscina e um tanque:
1 - A piscina está total ou parcialmente escavada/enterrada no solo;
2 - O tanque é uma estrutura totalmente elevada. As paredes verticais estão acima do nível do solo;
Mário Soares: Salazar tinha uma virtude, nunca mexeu nos dinheiros públicos
Mário Soares: "Fui sempre inimigo de Salazar, o meu pai foi também inimigo de Salazar, lutámos sempre contra o Salazar. Mas tinha uma virtude, é que nunca mexeu nos dinheiros públicos e isso é extremamente importante."
-
Há 50 anos, o número total de cidadãos estrangeiros em Portugal não era superior aos 32 mil. Hoje em dia, são mais de 1,5 milhões e em sete ...
-
S ome excerts of this study from United Nations : "(...) Focusing on these two striking and critical trends, the present study addre...
-
The statement attributed to Hamas commanders reflects an extremist and violent ideology that promotes hatred against non-Muslims, espe...


