terça-feira, 1 de setembro de 2026

Muçulmanos, integração e rejeição da sociedade ocidental

 

A melhor forma de conhecer alguns dos “novos portugueses”, designadamente os muçulmanos que hoje vivem entre nós e integram comunidades semelhantes às que se instalaram um pouco por toda a Europa, é conhecer os dados recolhidos sobre aquilo que pensam." - afirma o advogado João Pereira dos Santos, num dos textos que publicou recentemente, sobre a temática da inclusão dos muçulmanos na sociedade ocidental (e a quem peço desculpa por ter "roubado" os seus textos para o meu blogue - com a autoria devidamente identificada)

É algo com que estou de acordo - é preciso saber quem são aqueles que se instalam entre nós e, em muitos casos, têm valores e princípios completamente opostos aos nossos, bastando comparar os valores da religião muçulmana com o conteúdo da Constituição da República Portuguesa. Ou que constroem sistemas judiciais paralelos, onde se aplica a Sharia, a Lei Islâmica, numa flagrante violação dos princípios legais em que a nossa sociedade se estrutura. É o caso, aliás, do Tribunal Islâmico que funciona, há mais de 20 anos, na Mesquita de Lisboa, presidido pelo xeque David Munir.

Um episódio recente envolveu o líder da comunidade Bangladeshi em Portugal, Rana Taslim Uddin que, num discurso que reuniu vários outros dirigentes dessa comunidade, afirmou que “aqueles que encontraram aqui uma sociedade nova, aqueles que estão aqui presentes hoje, perguntam-me o que eu fiz para a sociedade. Irmãos, fi-lo para fazer o meu Deus feliz, não para a sociedade. Se Deus ficar feliz, ele trará uma solução para a sociedade e conduzirá esta sociedade para o caminho certo. Se não ficar feliz, então destruirá esta sociedade (*). Por isso tentamos agradar a Deus e ao mesmo tempo construir uma amizade com as pessoas desta sociedade.”

Em tempos que já lá vão - Junho de 2004 - publiquei um artigo no semanário "O Independente" intitulado "Radicalismo à venda na Mesquita de Lisboa". O tema principal do artigo tinha a ver com um grupo extremista, os Tablighi Jamaat, com uma presença crescente na comunidade islâmica portuguesa. Tive acesso, na altura, àquilo que era a "Bíblia" dos Tablighi Jamaat ("Faza'il - e - Amaal" / "As Virtudes das Acções")

Tratava-se essencialmente de uma colectânea de textos narrando as heróicas batalhas dos muçulmanos, nos primeiros tempos da sua implantação. A tradução para português era da responsabilidade do xeque David Munir e do xeque Daud Ismael. O  próprio imã da Mesquita de Lisboa, David Munir, aconselhou a sua leitura durante a habitual oração de sexta-feira. O último capítulo do livro "As Virtudes das Acções" que tem como título: “A Degradação Muçulmana e a sua Única Solução” apela a um “forte contra-ataque”, no intuito de recuperar o domínio do Islão sobre o mundo, dentro dos limites e das directrizes da “Shariah”

Para situar "ideologicamente" esse movimento, basta dizer que a própria Arábia Saudita baniu a organização do país, classificando-a como sendo "uma antecâmara do terror". O filho de Abdul Karim Vakil, presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, professor no King's College, alertou para o perigo dos Tablighi Jamaat, que já na altura constituíam a maioria da comunidade muçulmana portuguesa: 

"O grupo extremista Tabligh Jamaat 'representa, por um lado, e incontestavelmente, a força de maior dinamização do Islão entre os muçulmanos em Portugal. Por outro, o seu rigoroso tradicionalismo, traduzido na prescrição do próprio vestuário, na estrita separação entre os sexos, numa atitude de distanciamento em relação à sociedade exterior, representa, como já referi, um factor de ruptura na tendência histórica para a integração na atitude dos muçulmanos em Portugal", afirma Abdool Karim Vakil (filho) numa investigação intitulada “Do Outro ao Diverso – Islão e Muçulmanos em Portugal: história, discursos, identidades."

 A rejeição dos valores ocidentais, por parte dos Tabligh Jamaat, é revelada de forma clara num artigo publicado em 2001, na revista islâmica Al-Madinah, editada pela Comunidade Islâmica do Sul do Tejo. De acordo com esse artigo da revista Al-Madinah, "nas escolas comuns (...) torna-se impossível salvaguardar a fé. A solução disto passa pela criação de instituições islâmicas, onde as crianças possam crescer num ambiente islâmico" - sendo a Escola Islâmica de Palmela um exemplo pioneiro dessa estratégia.

No artigo que então publiquei n'O Independente", entre outros aspectos, destacava o extremismo da revista "Al-Furqán", uma revista islâmica portuguesa, que tinha publicado, em 1988, um artigo com chamada à primeira página intitulado: "Será que os judeus são dotados de humanidade?" Nas páginas do interior, o autor do artigo, xeque Aminuddin Mohamad, na altura conselheiro espiritual da Comunidade Islâmica de Lisboa,  escrevia que "os judeus propriamente ditos não são seres humanos." O artigo terminava com um rasgado elogio a Hitler: “Os judeus são inimigos de todos aqueles que não o são, e procuram fazer-lhes todo o mal possível. Talvez tenha sido por isso que Hitler quis aniquilar este maldito povo”.

Os Tabligh Jamaat são os responsáveis pela organização anual do maior encontro de muçulmanos, depois da peregrinação a Meca. Cerca de quatro milhões de elementos reúnem-se na cidade paquistanesa de Raiwind, havendo encontros semelhantes e de dimensão idêntica no Bangladesh e na Índia. 

O movimento islâmico Tabligh Jamaat também reúne anualmente na Mesquita de Lisboa, num encontro internacional que decorre num ambiente aparentemente calma e descontraído, de acordo com Lusa. Para além do líder do movimento, Esmael Loonat, vários responsáveis da Comunidade Islâmica do Sul do Tejo e da Escola Islâmica de Palmela são membros do movimento.

Para além da Arábia Saudita, mais de uma dezena de países baniram os Tablih Jamaat: Iran, Uzbekistan, Tajikistan and Kazakhstan, Russia. Além desses países, outros situados na Ásia Central também tomaram a mesma decisão, por discordarem da posição puritânica e do extremismo desse movimento: Uzbekistão, Tajikistão and Kazakhstão.

(*) - Tradução de Jayanti Dutta, docente e investigadora do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Universidade de Lisboa, divulgada pelo programa de televisão "Polígrafo", em relação ao que foi afirmado por Rana Taslim Uddin naquela intervenção:

“Aqueles que encontraram aqui uma sociedade nova, aqueles que estão aqui presentes hoje, perguntam-me o que eu fiz para a sociedade. Irmãos, fi-lo para fazer o meu Deus feliz, não para a sociedade. Se Deus ficar feliz, ele trará uma solução para a sociedade e conduzirá esta sociedade para o caminho certo. Se não ficar feliz, então destruirá esta sociedade. Por isso tentamos agradar a Deus e ao mesmo tempo construir uma amizade com as pessoas desta sociedade.”

 

 

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