À conversa com Mamadou Ba, activista do Movimento SOS Racismo, procurámos perceber as lógicas históricas que conduziram à génese e persistência da Europa como Fortaleza. A fronteira, sempre
vigiada e tantas vezes intransponível está assente, de acordo com
Mamadou, “nos limites da capacidade geo-estratégica da Europa” e, como
tal, é isso que “temos que interrogar, que não pode existir!”
R. Alves: Há um genocídio em curso às portas da Europa. Podes
dizer-nos como é que tudo isto começou, fazendo uma espécie de
arqueologia da Europa Fortaleza?
Mamadou Ba: Eu acho que nós podemos dizer, de uma
forma genérica, que as fronteiras da Europa – fictícias, políticas e
geográficas – se tornaram cemitérios a partir do momento em que a Europa
se instalou numa situação de revanche histórica contra os
países periféricos, nomeadamente as suas antigas colónias. Já havia
mortes na década de setenta, eram poucas e não eram muito publicitadas,
porque eram mais ou menos aventureiros que tentavam chegar à Europa
através do Estreito de Gibraltar.
Na altura, havia uma política de
recrutamento de trabalhadores, ou seja, o acerto entre o que deveria
haver de relação colonial entre a Europa e o resto do mundo era feito indo buscar trabalhadores em massa para trazer para alguns países da Europa, logo a seguir aos Trinta Gloriosos
[período entre 1945 a 1975] e onde houve uma industrialização forte
(i.e. França, Itália, Bélgica, Alemanha). A Europa reciclou a sua forma
de trabalho escravo indo buscar, através de acordos bilaterais,
trabalhadores em massa. Hoje, a ideia que nós temos é essa narrativa de
que as pessoas vêm em massa porque decidiram vir em massa. Não! Alguém
criou essa ideia de que havia uma possibilidade de as pessoas virem.
Eu
sei que para alguns esta comparação é muito forçada, mas ela tem alguma
lógica histórica: o que a Europa fez logo a seguir às independências foi
o que o faziam os navios negreiros quando iam buscar escravos.
Portanto, a lógica da economia da morte, que resulta dessa massificação
da imigração, foi uma coisa planeada e planificada por uma necessidade
económica capitalista. Depois, quando a Europa começa a entrar numa fase
de algum refluxo económico e, sobretudo, quando começou a perceber que
já não havia possibilidade de controlar essas “manadas” – tal como no
tempo colonial, ou no tempo da escravatura -, que as pessoas podiam ter
alguma mobilidade dentro da prisão que era o seu estatuto e a sua
condição de imigrantes, isso começou a criar problemas.
Em finais de setenta, início de oitenta, depois de ter desarticulado
também as economias dos países de origem, através das políticas de
ajustamento estruturais, decidiu: “Olha, nós vamos também, tal como liberalizamos a economia, vamos liberalizar a mobilidade”,
o que implica fazer o quê? Nós criamos mecanismos de filtro, deixamos
entrar quando quisermos, como quisermos para fazer duas pressões ao
mesmo tempo: pressionar os países de origem – na gestão das saídas e
entradas dos seus cidadãos – e pressionar a nossa classe trabalhadora.
Deixando sempre entreaberta a hipótese de que pode vir uma ameaça de
fora e, claro, que a Europa também está instalada na sua genética atitude
imperialista. Ela acha que a única forma de poder ter acesso a recursos
para alimentar a sua máquina económica é perturbar e destabilizar os
países mais periféricos e a partir daí temos a Europa a fazer guerras
por procuração no Continente Africano, no Médio Oriente e também no
Extremo Oriente, coisa que não se fala muito nas narrativas. Tirando a
Inglaterra, não temos nenhuma discussão sobre o que acontece, por
exemplo, no Extremo Oriente (Malásia, Singapura). E há ali fluxos
danados de imigrantes que resultam da herança da política imperialista
britânica, tal como no Corno de África e no Próximo ou no Médio Oriente
(Somália, Líbano).
A própria conivência da Europa com o Estado de apartheid
de Israel também cria fluxos migratórios forçados porque cria tensões
em que as pessoas se vêem obrigadas a fugir para se salvarem. Depois,
por um ajuste histórico de posição, logo a seguir à queda do muro de
Berlim assistimos à implosão de parte importante dos países que eram
limítrofes da Europa dita Ocidental. Com a guerra dos Balcãs isso foi
uma forma que a Europa encontrou de arranjar uma desculpa para dizer: “Nós a partir de agora não podemos receber toda a gente”.
Depois a Europa, do ponto de vista cultural, massificou uma forma de
estar no mundo, ou seja, criou uma certa hegemonia civilizacional e
cultural através da massificação da televisão e contou nisso com a
conivência dos seus vassalos. Os poderes políticos desses países – que
foram instalados, a maior parte das vezes, pela Europa ou por interesses
europeus – tudo fizeram para criar uma condição de necessidade
permanente das populações para aspirarem a ter uma coisa, um modelo de
sociedade que não é o delas. E onde é que podem ir buscá-lo? É na
Europa. Tal como a Europa fez quando empreendeu o imperialismo e o
colonialismo, criou-se a ideia do El Dourado ao contrário.
(Continua)