A comunidade muçulmana bangladeshi fez chegar ao gabinete de Carlos Moedas a sua preocupação pela eventualidade de ocorrerem actos hostis resultantes da passagem da procissão do Corpo de Deus por uma zona de grande concentração de muçulmanos, a praça do Martim Moniz.
De recordar que a PSP deu parecer negativo à realização de uma manifestação, na Praça Martim Moniz, em Abril do ano passado, organizadas por associações e partidos críticos do islamismo, que incluía um porco assado no espeto. Na altura, a PSP considerou que a organização de uma iniciativa de um desses grupos justificava a decisão, comunicada à Câmara Municipal de Lisboa, com a realização de "manifestações/concentrações antagónicas para a mesma hora e área geográfica" com "desígnios e posicionamentos ideológicos distintos e antagónicos" e a necessidade de "garantir a ordem e tranquilidade públicas".
A decisão de alterar o trajecto de uma procissão com 630 anos resultou das reticências da comunidade muçulmana, acima referidas, acolhidas tanto pela Câmara de Lisboa como pelo próprio Patriarcado de Lisboa que não apresentou, publicamente, qualquer justificação razoável pela alteração do trajecto.
O Patriarca de Lisboa apenas publicou uma nota no seu site da Internet, onde refere que "a tradicional Procissão do Corpo de Deus na cidade de Lisboa, hoje (dia 4 de Junho de 2026), às 17h00, vai este ano mudar de percurso – iniciando e terminando na Sé Patriarcal – o novo trajeto inclui agora a Praça do Município, a Rua do Arsenal e a Praça do Comércio (Terreiro do Paço)", sem acrescentar qualquer razão para as alterações introduzidas.
Em Portugal, a Solenidade do Corpo de Deus começou a ser celebrada no século XIII, durante o reinado de D. Afonso III, logo após a sua instituição papal em 1264. Contudo, no início era apenas uma festa litúrgica celebrada dentro das igrejas. O formato de procissão solene pelas ruas começou em 1317-1318, por determinação do Papa João XXII.
Em Lisboa, a procissão pública foi introduzida formalmente em 1389 (no reinado de D. João I), unindo-se à festa de São Jorge e tornando-se a celebração mais pomposa e importante da capital portuguesa. O trajeto tradicional e habitual compreendia o início na Sé Patriarcal de Lisboa, descendo a Rua das Pedras Negras e Rua da Madalena com passagem pela Praça da Figueira e Praça D. Pedro IV (Rossio) retornando à Baixa. Historicamente passava pela zona do Martim Moniz ou descia as ruas paralelas da Baixa Pombalina (como a Rua do Ouro ou a Rua dos Fanqueiros) para regressar à Sé.
O trajeto tradicional incluía a passagem pela praça do Martim Moniz, logo após a saída da Igreja da Madalena e da Praça da Figueira. O cortejo subia até ao Martim Moniz, contornava a zona junto ao Hotel Mundial e só depois descia em direção ao Rossio (Praça D. Pedro IV). Essa passagem garantia que a procissão abrangesse uma das praças mais multiculturais e movimentadas do centro de Lisboa.
Até 2025, o trajecto incluía a passagem pela praça do Martim Moniz. Após 55 anos a efetuar o circuito que incluía a praça Martim Moniz (1971–2025), o Patriarcado alterou este ano, de forma permanente, o trajeto, passando a excluir a praça Martim Moniz.

em acrescentar qualquer razão para as alterações introduzidas.= Nestas declarações antes do início da procissão, D. Rui Valério sublinhou ainda o valor simbólico do novo trajeto, nomeadamente a passagem junto ao centro do poder local: “Aquilo que nós tivemos em conta foi sobretudo o aspeto simbólico dos locais por onde este ano vamos também passar. O facto de ser junto à Câmara Municipal de Lisboa tem o significado exatamente de visitarmos, desta forma simbólica, todos aqueles que habitam em Lisboa, que vivem, visitam e trabalham na cidade”.
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