sábado, 16 de agosto de 2025

O movimento islâmico Tabligh Jamaat: um factor de ruptura na tendência para a integração dos muçulmanos em Portugal

 

 

A reorganização da estrutura de poder dentro da comunidade islâmica portuguesa é um fenómeno que se tornou mais perceptível quando da saída do seu líder de muitos anos, Abdool Karim Vakil, substituído por Mahomed Iqbal.

Até então, a estratégia de integração e, até certo ponto, de assimilação da comunidade islâmica na sociedade portuguesa decorria sem rupturas ou conflitos. 

Mas nos últimos anos do seu longo mandato à frente da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Abdool Karim Vakil (pai) enfrentava já uma forte contestação interna de um grupo em ascenção, os Tabligh Jamaat por ser considerado demasiado pró-"kufr", (كُفْر - termo que significa incredulidade ou descrença em Alá e em seus ensinamentos conforme revelados no Alcorão e na Sunnah), o oposto de "iman" (fé). 

Essa contestação começou a surgir à medida que a natureza da comunidade islâmica em Portugal conheceu um processo de "substituição", provocado pela imigração de muçulmanos provenientes do Paquistão, Bangladesh e Índia, nas duas últimas décadas.

Até então, a maioria da comunidade islâmica era composta por muçulmanos provenientes de Moçambique e seus descendentes - muçulmanos já com uma forte ligação à cultura portuguesa, muitos deles nascidos naquela colónia portuguesa. Nas duas últimas décadas, a composição da comunidade islâmica sofreu alterações profundas. Os recém-chegados muçulmanos, provenientes dos países indostânicos e muitos deles pertencentes a um ramo do Islão, os Tabligh Jamaat, rapidamente se transformaram na "força de maior dinamização do Islão entre os muçulmanos em Portugal", de acordo com Abdool Karim Vakil (filho), investigador do King's College, em Londres. 

Graças a essa imigração regular, o número de muçulmanos indostânicos rapidamente ultrapassou o grupo de muçulmanos provenientes de Moçambique. Nos últimos actos eleitorais antes da sua saída de presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Abdool Karim Vakil viu-se obrigado a "negociar" com os Tabligh Jamaat, para conseguir votos suficientes para a sua eleição. Em contrapartida, os Tabligh Jamaat exigiram lugares na direcção da CIL. O exemplo mais visível dessa negociação era a presença naquele órgão directivo do líder dos Tablih Jammat em Portugal, Esmael Loonat.

Mas o "rigoroso tradicionalismo, traduzido na prescrição do próprio vestuário, na estrita separação entre os sexos, numa atitude de distanciamento em relação à sociedade exterior, representa (...) um factor de ruptura na tendência histórica para a integração na atitude dos muçulmanos em Portugal", salienta Abdool Karim Vakil (Filho), numa investigação intitulada “Do Outro ao Diverso – Islão e Muçulmanos em Portugal: história, discursos, identidades”

Os Tablighi Jamaat, que significa "o partido dos pregadores do Islão" foi fundado em 1926 pelo clérigo indiano Muhammad Ilyas al-Kandhlawi com o objetivo de espalhar o Islão para os não-muçulmanos e também para purgar a fé das influências de outras religiões, mais notavelmente as influências hindu e cristã na Índia Britânica na época.

A organização é um remanescente do movimento Deobandi do Islão, que surgiu na cidade indiana de Deoband, como resposta à suposta deterioração dos valores islâmicos na Índia. Antes um movimento local, os Tablighi Jamaat espalharam-se pelo mundo inteiro. O grupo também organiza reuniões anuais que têm lugar na cidade de Raiwind,  na Índia e também no Bangladesh. 

O movimento islâmico Tabligh Jamaat também reúne anualmente na Mesquita de Lisboa, num encontro internacional que decorre num ambiente aparentemente calma e descontraído, de acordo com a Lusa. No entanto, num recente encontro, os membros do movimento recusaram falar à Comunicação Social, alegando que apenas que Esmael Loonat (um dos líderes do Tabligh Jamaat em Portugal) podia falar. Para além de Esmael Loonat, vários responsáveis da Comunidade Islâmica do Sul do Tejo e da Escola Islâmica de Palmela são membros do movimento.

De acordo com Esmael Loonat, em declarações ao jornal Público, da parte dos Tabligh Jamaat "não existe rejeição dos valores ocidentais (…) os pregadores do Tabligh também não têm como objectivo a conversão dos não-muçulmanos (…) Só desenvolvemos a nossa actividade junto dos muçulmanos", acrescentou. Curiosamente, nessa ocasião, Esmael Loonat não autorizou nenhum órgão de Comunicação Social a obter imagens suas, fossem fotos ou gravações para as TV's - um interpretação extremista do Islamismo que proíbe a reprodução de qualquer imagem humana.

A rejeição dos valores ocidentais, por parte dos Tabligh Jamaat, é revelada de forma clara num artigo publicado em 2001, na revista islâmica Al-Madinah, editada pela Comunidade Islâmica do Sul do Tejo. De acordo com esse artigo da revista Al-Madinah, "nas escolas comuns (...) torna-se impossível salvaguardar a fé. A solução disto passa pela criação de instituições islâmicas, onde as crianças possam crescer num ambiente islâmico" - sendo a Escola Islâmica de Palmela um exemplo dessa estratégia.

Em 2004 os Tabligh Jamaat editaram uma tradução portuguesa daquilo que é a sua "bíblia", um livro  intitulado "Fazail-E-Amaal", “As virtudes das acções”, que esteve à venda na Mesquita de Lisboa apenas durante algumas horas. A publicação, no semanário O Independente, de duas páginas sobre o movimento em Portugal e o conteúdo de "As Virtudes das Acções" (versão portuguesa) atraiu a atenção de outros Órgãos de Comunicação Social e quando chegou à Mesquita de Lisboa uma primeira carrinha da televisão, os elementos do grupo retiraram a publicação, rapidamente, dos escaparates.

No entanto, o próprio imã da Mesquita, David Munir, aconselhou a sua leitura durante a habitual oração de sexta-feira, afirmando que era "uma boa leitura para todos os muçulmanos". O último capítulo do livro "As Virtudes das Acções" que tem como título: “A Degradação Muçulmana e a sua Única Solução” apela a um “forte contra-ataque”, no intuito de recuperar o domínio do Islão sobre o mundo, dentro dos limites e das directrizes da “Shariah”.

O livro propõe ainda que, para atingir esses objectivos, sejam adoptados os “métodos e os meios demonstrados pelo Santíssimo Profeta de Alá, isto porque o profeta não só foi bem sucedido no seu objectivo, como foi capaz de eliminar todas as relações (religiosas) entre os seus seguidores e elementos de fora”, acrescenta-se no livro "As Virtudes das Acções". Actualmente, há pelo menos oito comunidades islâmicas que estão a preparar a abertura de outras tantas escolas islâmicas, idênticas à Escola Islâmica de Palmela.

Para além disso, existem dezenas de "madrassas" (escolas religiosas islâmicas) espalhadas pelo país. A acrescentar a isto, há o facto de, na maioria das comunidades muçulmanas existentes em Portugal funcionarem "tribunais islâmicos", onde os casos são julgados de acordo com a "Sharia", a lei islâmica. Um desses tribunais funciona, há mais de uma dezena de anos, na Mesquita de Lisboa e é presidido pelo xeque David Munir. 

Para além da Mesquita de Lisboa há mais de uma centena de locais de culto islâmicos, espalhados pelo país (incluindo até nos Açores). Embora não haja números oficiais, calcula-se que existam actualmente mais de 200 mil muçulmanos em Portugal, a maioria proveniente do Bangladesh e Paquistão, uma vez que a comunidade islâmica conheceu uma expansão assinalável, nos últimos anos, com a política de imigração do governo de António Costa.

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Lusa, RTP e RDP acusam Bissau de ataque à liberdade de expressão

 


As Direções de Informação da agência Lusa, RDP e RTP repudiaram hoje a expulsão dos seus jornalistas de Bissau e acusaram o governo guineense de "ataque deliberado à liberdade de expressão".

Numa Nota de Repúdio, os diretores dos três órgãos de comunicação públicos portugueses acusam o governo guineense de "silenciar os jornalistas" numa "ação discriminatória e seletiva" que configura "um ataque deliberado à liberdade de expressão."

O Governo da Guiné-Bissau decidiu hoje expulsar as delegações da agência Lusa, da RTP e da RDP do país, suspender as suas emissões com efeitos imediatos e ordenar aos seus representantes que deixem o país até terça-feira. Não foram avançadas razões para esta decisão.

"Consideramos que a expulsão dos nossos jornalistas é um atentado aos princípios fundamentais que norteiam a atividade jornalística. São igualmente, por isso, atitudes que violam a democracia e o estado de direito", afirmam os três Diretores de Informação - Luísa Meireles (Lusa), Mário Galego (RDP) e Vítor Gonçalves (RTP).

Na nota, estes responsáveis manifestam a sua solidariedade com os profissionais dos três órgãos em Bissau, bem como "a todos os jornalistas que tentam cumprir um elementar pilar da sociedade que é o direito à informação". Os Diretores de Informação exigem por isso que os jornalistas da LUSA, da Rádio e da Televisão da RTP possam continuar a exercer o direito de informar na Guiné-Bissau. 

Sweden mosque shooting : Horror as 'explosions' heard at Friday prayers

 



Explosions and gunshots have been heard during Friday prayers at a Mosque in the Swedish city of Örebro. The public has been urged to stay away from the scene.
Explosions and gunshots rocked Friday prayers at a mosque in Örebro, Sweden, this afternoon (August 15). Police reported that at least two people had been shot and that a manhunt for the gunman was underway. 

Police said more people were injured in the incident, but did not give details on how many were hurt or how serious their injuries were. The public have been urged to avoid the area. Following the sounding of the alarm at 1:45pm local time, rescue services and an ambulance have rushed to the scene. 

According to Aftonbladet's information, two people were shot and the hunt for a suspected perpetrator is ongoing. Earlier this summer, Sweden was declared the EU's gun crime capital, with police believing about 62,000 persons are active in, or have a connection to, the criminal network in the country.

Express 

Presos de nacionalidade estrangeira em países europeus: Portugal na 14ª posição

 

De acordo com o relatório anual do Conselho da Europa (SPACE) de 2023, são estes os dez países europeus com a maior percentagem de presos de nacionalidade estrangeira:

    Luxemburgo: 75.8%
    Suíça: 73.1%
    Grécia: 50.7%
    Áustria: 40.8%
    Bélgica: 40.5%
    Alemanha: 34.3%
    França: 32.5%
    Itália: 31.7%
    Noruega: 29.5%
    Espanha: 29.3%
   (…)
   Portugal: 21 %

Portugal encontra-se na 14ª posição em termos de percentagem de reclusos de nacionalidade estrangeira. Estes dados referem-se à nacionalidade dos reclusos, não ao seu local de nascimento ou etnia. 

Com "Gemini" 

Município francês cancelou projecção de Barbie devido a ameaças de fundamentalistas islâmicos

 


Município francês cancelou projecção de Barbie devido a ameaças do “fundamentalismo”

Um grupo de habitantes de Noisy-le-Sec, junto a Paris, ameaçou com distúrbios se a sessão avançasse, classificando o filme como uma “apologia da homossexualidade” que “viola a integridade da mulher”.

Aconteceu na sexta-feira ao final do dia, mas só na quarta-feira a comunicação social francesa deu conta: a câmara municipal de Noisy-le-Sec, na região de Seine-Saint-Denis (à entrada de Paris), anulou uma projecção de Barbie ao ar livre por "pressão" de um grupo de habitantes — quatro, dez ou 15, os relatos variam — que vêem no filme de Greta Gerwig uma "apologia da homossexualidade" que "viola a integridade da mulher".

A "pressão" terá acontecido nestes termos, de acordo com o comunicado, publicado no site oficial do município, do presidente da câmara, Olivier Sarrabeyrouse, um militante comunista: quando os funcionários municipais montavam o grande ecrã para uma sessão gratuita, a iniciativa Ciné sous les étoiles ("Cinema debaixo das estrelas"), destinada a animar o Verão dos munícipes que não quiseram ou não puderam viajar nas suas férias, aquele grupo de indivíduos aproximou-se e ameaçou desmantelar tudo, pondo fim à sessão. O filme a projectar às 21h dessa noite fora escolhido mediante uma votação promovida pela edilidade, que recaiu na sátira feminista de Greta Gerwig, o grande blockbuster de 2023 (1,4 mil milhões de dólares de receitas).

Sarrabeyrouse diz não ter cedido a uma "censura moral", apenas colocou em primeiro lugar a segurança dos funcionários e das famílias do bairro de Londeau — está a ser elogiado por isso, mas também criticado, cada um fazendo valer a sua agenda (e a direita, extrema ou não, tem estado activa), por ter permitido que Noisy-le Sec figure agora ao lado do Kuwait, do Líbano, da Argélia ou do Vietname, países que proibiram a difusão do filme.

(Continua

Polestar 3 entra para o Livro do Guinness com recorde de autonomia

 


Há mais um carro no Livro de Recordes do Guinness. É o sueco Polestar 3, que se tornou no SUV elétrico que mais distância percorreu com uma única carga.

O recorde foi superado nas estradas do Reino Unido, por um exemplar de motor único e de longo alcance. Levou 22 horas e 57 minutos, num misto de condições meteorológicas (incluindo chuva). O automóvel cumpriu 935,44 km, conduzido por Kevin Booker, Richard Parker e Sam Clarke que se revezaram a cada três horas. Quando chegou aos 706 km (autonomia WLTP anunciada), o carro ainda tinha 20 por cento de bateria disponível.

Após atingir os 0 por cento, este Polestar 3 ainda conseguiu percorrer 12,8 km. Chegou a um ponto de carregamento antes de ficar parado, apresentando consumos de 12,1 kWh por cada 100 km. A versão do Polestar 3 que bateu o recorde foi a de longo alcance e motor único, que tem tração traseira. São 299 cv de potência e 490 Nm de binário, apresentando uma velocidade máxima de 180 km/h e uma aceleração dos 0 aos 100 km em 7,8 segundos.

A bateria de iões de lítio, comum a todas as versões, é fabricada pela CATL, com química de níquel-magnésio-cobalto. Tem uma capacidade utilizável de 107 kWh e uma arquitetura de 400 volts. Esta ajuda a ter uma autonomia de 706 km.

A variante de longo alcance e dois motores tem tração integral, 489 cv de potência e 840 Nm de binário, atingindo os 210 km/h de velocidade. A autonomia desce para 632 km. Há, também, a versão de longo alcance e dois motores com Performance Pack, na qual o Polestar 3 tem 560 km de autonomia, 517 cv de potência e 910 Nm de binário. A velocidade máxima é de 210 km/h.

O automóvel confia a travagem a discos ventilados à frente e atrás, sendo que as rodas frontais têm sistema brake-by-wire e pinças Brembo de quatro êmbolos. Atrás, há uma pinça de um êmbolo. A suspensão dianteira é de duplo A e, atrás, de ligação integral

“A Europa é uma prisão a céu aberto” – entrevista a Mamadou Ba

 

Entrevista do jornal online "Mapa" - 1 de Novembro de 2015

À conversa com Mamadou Ba, activista do Movimento SOS Racismo, procurámos perceber as lógicas históricas que conduziram à génese e persistência da Europa como Fortaleza. A fronteira, sempre vigiada e tantas vezes intransponível está assente, de acordo com Mamadou, “nos limites da capacidade geo-estratégica da Europa” e, como tal, é isso que “temos que interrogar, que não pode existir!”

R. Alves: Há um genocídio em curso às portas da Europa. Podes dizer-nos como é que tudo isto começou, fazendo uma espécie de arqueologia da Europa Fortaleza?

Mamadou Ba: Eu acho que nós podemos dizer, de uma forma genérica, que as fronteiras da Europa – fictícias, políticas e geográficas – se tornaram cemitérios a partir do momento em que a Europa se instalou numa situação de revanche histórica contra os países periféricos, nomeadamente as suas antigas colónias. Já havia mortes na década de setenta, eram poucas e não eram muito publicitadas, porque eram mais ou menos aventureiros que tentavam chegar à Europa através do Estreito de Gibraltar. 

Na altura, havia uma política de recrutamento de trabalhadores, ou seja, o acerto entre o que deveria haver de relação colonial entre a Europa e o resto do mundo era feito indo buscar trabalhadores em massa para trazer para alguns países da Europa, logo a seguir aos Trinta Gloriosos [período entre 1945 a 1975] e onde houve uma industrialização forte (i.e. França, Itália, Bélgica, Alemanha). A Europa reciclou a sua forma de trabalho escravo indo buscar, através de acordos bilaterais, trabalhadores em massa. 

Hoje, a ideia que nós temos é essa narrativa de que as pessoas vêm em massa porque decidiram vir em massa. Não! Alguém criou essa ideia de que havia uma possibilidade de as pessoas virem. Eu sei que para alguns esta comparação é muito forçada, mas ela tem alguma lógica histórica: o que a Europa fez logo a seguir às independências foi o que o faziam os navios negreiros quando iam buscar escravos. Portanto, a lógica da economia da morte, que resulta dessa massificação da imigração, foi uma coisa planeada e planificada por uma necessidade económica capitalista.

Depois, quando a Europa começa a entrar numa fase de algum refluxo económico e, sobretudo, quando começou a perceber que já não havia possibilidade de controlar essas “manadas” – tal como no tempo colonial, ou no tempo da escravatura -, que as pessoas podiam ter alguma mobilidade dentro da prisão que era o seu estatuto e a sua condição de imigrantes, isso começou a criar problemas.

Em finais de setenta, início de oitenta, depois de ter desarticulado também as economias dos países de origem, através das políticas de ajustamento estruturais, decidiu: “Olha, nós vamos também, tal como liberalizamos a economia, vamos liberalizar a mobilidade”, o que implica fazer o quê? Nós criamos mecanismos de filtro, deixamos entrar quando quisermos, como quisermos para fazer duas pressões ao mesmo tempo: pressionar os países de origem – na gestão das saídas e entradas dos seus cidadãos – e pressionar a nossa classe trabalhadora. 

Deixando sempre entreaberta a hipótese de que pode vir uma ameaça de fora e, claro, que a Europa também está instalada na sua genética atitude imperialista. Ela acha que a única forma de poder ter acesso a recursos para alimentar a sua máquina económica é perturbar e destabilizar os países mais periféricos e a partir daí temos a Europa a fazer guerras por procuração no Continente Africano, no Médio Oriente e também no Extremo Oriente, coisa que não se fala muito nas narrativas. 

Tirando a Inglaterra, não temos nenhuma discussão sobre o que acontece, por exemplo, no Extremo Oriente (Malásia, Singapura). E há ali fluxos danados de imigrantes que resultam da herança da política imperialista britânica, tal como no Corno de África e no Próximo ou no Médio Oriente (Somália, Líbano). A própria conivência da Europa com o Estado de apartheid de Israel também cria fluxos migratórios forçados porque cria tensões em que as pessoas se vêem obrigadas a fugir para se salvarem. 

Depois, por um ajuste histórico de posição, logo a seguir à queda do muro de Berlim assistimos à implosão de parte importante dos países que eram limítrofes da Europa dita Ocidental. Com a guerra dos Balcãs isso foi uma forma que a Europa encontrou de arranjar uma desculpa para dizer: “Nós a partir de agora não podemos receber toda a gente”. Depois a Europa, do ponto de vista cultural, massificou uma forma de estar no mundo, ou seja, criou uma certa hegemonia civilizacional e cultural através da massificação da televisão e contou nisso com a conivência dos seus vassalos. 

Os poderes políticos desses países – que foram instalados, a maior parte das vezes, pela Europa ou por interesses europeus – tudo fizeram para criar uma condição de necessidade permanente das populações para aspirarem a ter uma coisa, um modelo de sociedade que não é o delas. E onde é que podem ir buscá-lo? É na Europa. Tal como a Europa fez quando empreendeu o imperialismo e o colonialismo, criou-se a ideia do El Dourado ao contrário.

R. Alves: O que é que achas que tem de colonial esta relação?

Mamadou Ba: A continuidade colonial está patente, primeiro, na própria gestão das relações bilaterais entre a Europa, ou seja, a forma como a Europa decide expandir e retrair a fronteira a seu bel-prazer, consoante o xadrez geopolítico. A Europa decide, às tantas, que pode ter políticas ou programas de gestão das suas fronteiras que vão além fronteira: os acordos bilaterais de admissão passiva de imigrantes, a externalização dos centros de detenção, a militarização e os dispositivos militares que a Europa usa são disso uma prova cabal. 

Por exemplo, o Mare Nostrum, um resquício fascista que tinha a pretensão de que a Europa podia controlar toda a sua fronteira marítima e decidia quem era nosso e quem não era nosso, quem era susceptível de ser ou não salvo. Isto é um instrumento de gestão geopolítica da fronteira. Quando a Europa decidiu que já não queria fazer nem a montante nem a jusante esta vigilância fronteiriça acabou com o Mare Nostrum e criou o Triton, que o que diz, basicamente, é: “Os nossos vizinhos são quase os nossos inimigos, portanto nós não queremos que vocês venham morrer cá, morram lá! O que vamos fazer é: vamos utilizar esses instrumentos para fazer com que as mortes sejam menos visíveis aqui às portas da Europa e que sejam mais escondidas”.

R. Alves: De quando é que datam estes programas? 

Mamadou Ba: A Cimeira de Sevilha (2001) legitimou a ideia de que a imigração já não era um direito mas uma mercadoria. Um Estado podia decidir, quando lhe apetecesse, aceitar ou não o embrulho. Essa era a filosofia. E para dar corpo a isso, inseres um instrumento repressivo e então criou-se a Frontex (2004). Depois tinhas que dar um programa político à Frontex, porque a Frontex é um instrumento militar mas o seu programa político era o Mare Nostrum (2006/2007). 

Depois da tragédia de Lampedusa (2013), a Europa disse: “Não! Isto é demasiado impactante na nossa opinião pública” – os cadáveres a boiarem às portas da Europa – “Isto agora tem que acabar! Eles que morram, morram em alto mar… ou morram lá antes dechegarem cá!”. Então criou o Triton, uma forma de simplesmente evitar que as mortes sejam visíveis aqui na Europa. O Mare Nostrum tinha uma componente repressiva mas tinha uma componente de salvamento porque era inspirado no direito marinho medieval em que os pescadores deviam, por um código de conduta, salvar pessoas que estivessem em perigo em alto mar, independentemente da sua nacionalidade. 

Tudo isso tem um fundo imperialista sabemo-lo, mas também tem uma parte de valor. Perante o perigo, salvar a vida, depois acertar contas. O Triton é o contrário: quanto menos for visível a desgraça, mais podemos tranquilizar as nossas consciências e, sobretudo, as consciências da nossa opinião pública. Aliás, reduziram os meios de salvamento, aumentaram os meios de vigilância, mas à distância, e introduziram uma coisa: o Triton tem previsto nos seus enquadramentos gerais, por exemplo, a possibilidade de haver bombardeamentos de barcos em países de origem dos imigrantes, usando não apenas a Frontex mas também a NATO. Isto chama-se colonialismo belicista. Foi assim que a Europa conquistou e dominou o mundo, com acções de razia e de guerra e esse é o conceito que a Europa vai buscar de novo para aplicar na questão da gestão da imigração.

Depois, logicamente, há a questão da escravatura. Transformar os imigrantes em números é tal e qual o que se fazia com os escravos nas caves dos barcos, que eram “gado”, eram coisas, objectos, não eram pessoas. E aqui nós transmutamos um bocadinho a sofisticação da negação da humanidade, numerizando, quantificando e retirando completamente a hipótese de podermos dizer que essa pessoa é uma pessoa, que tinha um nome e uma história.

(Continua